Há discos que registram o momento em que uma banda encontra seu público. Outros registram justamente o momento em que ela decide mudar de direção.
Bloco do Eu Sozinho pertence a essa segunda categoria.
Lançado pelos Los Hermanos em 2001, o segundo álbum da banda completa 25 anos em 2026. Para celebrar a obra, Rodrigo Barba, baterista do grupo, percorre o país com um espetáculo “Especial Los Hermanos” dedicado ao disco que chega nesta sexta-feira (11) a São José dos Campos, no Hocus Pocus Studio & Café.
A proposta é significativa: tocar Bloco do Eu Sozinho na íntegra e respeitando a ordem original de suas 14 faixas, além de recuperar versões que os Los Hermanos apresentavam durante a turnê daquele período.
No repertório estão músicas como “Todo Carnaval Tem Seu Fim”, “A Flor”, “Retrato pra Iaiá” e “Sentimental”, canções que atravessaram as duas décadas e meia seguintes e ajudam a contar o momento em que os Los Hermanos começaram a construir uma identidade muito diferente daquela que havia apresentado a banda ao grande público.
Depois de “Anna Júlia”
Para compreender a importância de Bloco do Eu Sozinho, é preciso voltar ao final dos anos 1990.
O primeiro álbum dos Los Hermanos, lançado em 1999, projetou nacionalmente o grupo carioca, principalmente a partir da enorme repercussão de “Anna Júlia”. Dois anos depois, portanto, havia uma expectativa natural em torno de seu sucessor.
A banda poderia simplesmente tentar reproduzir a fórmula que a havia colocado nas rádios, programas de televisão e grandes palcos do país.
Escolheu outro caminho.
Produzido por Chico Neves e lançado pela Abril Music, Bloco do Eu Sozinho apresentou um grupo disposto a ampliar consideravelmente seu vocabulário musical. Em dezembro de 2001, ao anunciar o show de lançamento do disco em São Paulo, a Folha de S.Paulo sintetizava aquela sonoridade como uma mistura de samba, hardcore e rock alternativo.
A definição ajuda a dimensionar o que estava acontecendo.
As guitarras permaneciam, mas passaram a conviver de maneira muito mais evidente com referências da música brasileira, arranjos de metais, percussões, teclados e estruturas que escapavam daquilo que parte do público poderia esperar da banda depois de seu primeiro disco.
Também ganhava espaço a contribuição de Rodrigo Amarante como compositor e vocalista, estabelecendo ao lado de Marcelo Camelo uma dinâmica autoral que se tornaria fundamental nos trabalhos seguintes.
Bloco do Eu Sozinho começava, assim, a deslocar os Los Hermanos da condição de banda associada a um grande sucesso para um território artístico mais particular.
Da ruptura ao disco de uma geração.
Vinte e cinco anos depois, é relativamente simples observar Bloco do Eu Sozinho como uma etapa natural da discografia da banda.
Em 2001, não era.
O álbum chegou justamente depois do período de maior exposição comercial dos Los Hermanos e optou por não reproduzir diretamente aquilo que havia funcionado anteriormente.
É aí que reside parte importante de seu significado.
Bloco do Eu Sozinho funciona como uma ponte entre duas versões do grupo: de um lado, a banda que havia chegado ao grande público no final dos anos 1990; do outro, aquela que aprofundaria nos trabalhos seguintes uma identidade própria e estabeleceria uma relação particularmente intensa com sua audiência.
Ao longo dos anos 2000, as canções também passaram a fazer parte da memória afetiva de uma geração que acompanhou a trajetória da banda.
“A Flor”, “Todo Carnaval Tem Seu Fim”, “Sentimental”, “Retrato pra Iaiá”, “Casa Pré-Fabricada”, “Veja Bem Meu Bem” e outras músicas deixaram de pertencer somente àquele momento de transição dos Los Hermanos para ocupar também histórias pessoais, relacionamentos, descobertas musicais e lembranças de quem atravessou aquele período ouvindo o grupo.
Em 2026, os 25 anos do álbum voltaram a colocar essa memória em circulação.
E existe algo especialmente interessante em observar um disco originalmente associado à transformação sendo celebrado, agora, pela nostalgia.
Rodrigo barba retorna ao “Bloco”.
É justamente nesse contexto que Rodrigo Barba volta ao repertório.
Para a turnê comemorativa, o baterista reuniu músicos que possuem diferentes conexões com a história dos Los Hermanos e daquele período.
A formação anunciada conta com Bubu, trompetista que participou do álbum e esteve envolvido em arranjos de algumas de suas faixas, além de músicos que acompanharam a banda na estrada: Gabriel Bubu, na guitarra; Índio, no saxofone; Maurão, no trombone; e Melvin, no baixo.
Completam o grupo Ramon, vocalista do Especial LH, e GugaBruno, na guitarra.
A configuração dá ao espetáculo uma característica particular.
Não se trata de uma reunião dos Los Hermanos. Tampouco de simplesmente colocar uma banda no palco para reproduzir um álbum conhecido.
A celebração parte de um dos músicos que gravaram a obra, acompanhado por instrumentistas que possuem vínculos com a história daquele repertório e com sua circulação pelos palcos.
A própria bateria de Barba ocupa uma posição importante nessa memória sonora. Seu instrumento está presente ao longo do álbum, inclusive em gravações que combinam sua bateria com outras participações e diferentes configurações instrumentais.
A turnê comemorativa já passou por diferentes cidades brasileiras ao longo de 2026 e chega agora ao Vale do Paraíba. O espetáculo também integra programações do Sesc São Paulo, que apresenta a celebração como uma revisão das duas décadas e meia do segundo álbum dos Los Hermanos.
Ouvir um álbum inteiro 25 anos depois.
Há uma diferença entre celebrar uma coleção de sucessos e executar um disco inteiro.
Quando um álbum é apresentado do início ao fim, preservando a sequência original das faixas, recupera-se também algo da lógica com que aquela obra foi concebida.
No caso de Bloco do Eu Sozinho, são 14 músicas distribuídas por aproximadamente 49 minutos, começando por “Todo Carnaval Tem Seu Fim” e terminando em “Adeus Você”. Entre elas estão momentos tão diferentes quanto “A Flor”, “Cadê Teu Suin?”, “Sentimental”, “Cher Antoine”, “Veja Bem Meu Bem” e a breve “Tão Sozinho”.
Reproduzir essa sequência em 2026 também estabelece um contraste com a maneira contemporânea de consumir música.
Bloco nasceu em uma época em que o CD ainda ocupava posição central na experiência musical. Ouvir um álbum significava, muitas vezes, atravessar suas faixas na sequência proposta pelos artistas, observar encartes, créditos e letras e construir familiaridade inclusive com músicas que jamais seriam singles.
Vinte e cinco anos depois, em um ambiente organizado cada vez mais por faixas individuais, playlists e recomendações algorítmicas, executar o trabalho integralmente também recupera a ideia de álbum como obra.
Talvez seja justamente por isso que retornar a Bloco do Eu Sozinho faça sentido para além da nostalgia.
O que em 2001 representava uma mudança arriscada de direção hoje permite ouvir o momento em que os Los Hermanos começaram a estabelecer a identidade artística que marcaria o restante de sua trajetória.
Se “Anna Júlia” apresentou os Los Hermanos ao Brasil, Bloco do Eu Sozinho começou a apresentar ao Brasil quem os Los Hermanos escolheriam ser.
É esse momento de transformação que Rodrigo Barba coloca hoje novamente no palco do Hocus Pocus Stúdio Café, em São José dos Campos, 25 anos depois.
Serviço
Rodrigo Barba – 25 anos de Bloco do Eu Sozinho
Data: Sexta-feira, 11 de setembro de 2026
Local: Hocus Pocus Studio & Café
Endereço: Rua Paraibuna, 838 – Jardim São Dimas, São José dos Campos (SP)
Programação informada pela produção:
21h – DJ
23h – Show
1h – DJ
Produção: Bicicleta Produtora
Ingressos: disponíveis pela Sympla.
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