Foto Amaro Freitas, por @glau.faria
A Mostra MIB 2026: Música Instrumental Brasileira ocupou o Colinas Shopping na última semana, entre os dias 14 e 17 de maio, e transformou um dos principais centros comerciais da cidade em espaço de encontro, contemplação e acesso à música instrumental brasileira.
Alguns eventos terminam quando as luzes do palco se apagam. Outros continuam reverberando por dias, talvez semanas, dentro de quem esteve ali. Talvez por isso esta matéria não tenha sido escrita antes.
Era preciso primeiro digerir o que aconteceu naqueles quatro dias em que um Shopping, espaço normalmente associado ao trânsito acelerado, às vitrines, às sacolas e ao consumo imediato, foi atravessado por algo menos urgente e mais raro: a experiência da escuta. E o mais impressionante talvez tenha sido justamente isso: ver centenas de pessoas parando. Sentando. Permanecendo. Observando atentamente cada silêncio, improviso e respiração da música instrumental brasileira.
Durante a MIB 2026, o Colinas Shopping deixou de ser apenas circulação para se tornar permanência.
Havia crianças sentadas no chão acompanhando solos de piano. Casais em silêncio absoluto diante de harmonias complexas. Pessoas que provavelmente nunca haviam assistido a um concerto instrumental permanecendo vidradas até o fim das apresentações. Entre uma loja e outra, instaurava-se uma espécie de suspensão coletiva do cotidiano. Mais do que um festival, a MIB revelou uma possibilidade: a de promover música instrumental como experiência acessível.
Fotos do público na Abertura da Mostra na quinta-feira, 14 de maio de 2025, por @glau.faria
Com entrada gratuita, a mostra reuniu alguns dos principais nomes da música instrumental brasileira contemporânea em uma programação que transitou entre jazz, choro, música nordestina, reggae, música jamaicana, improvisação e fusões contemporâneas.
A curadoria assinada por Luciana Machado e excelente produção ASAS Arte & Tecnologia foi um dos grandes méritos da mostra. Ao invés de apostar apenas em nomes consagrados ou em uma leitura tradicional do instrumental brasileiro, a MIB construiu uma programação plural, sensível e acessível, capaz de aproximar públicos distintos sem abrir mão da sofisticação artística.


Fotos por @glau.faria
A abertura na quinta-feira (14/05) com o Hamilton de Holanda Trio já indicava o tamanho da experiência que estava por vir. Ao lado de Salomão Soares e Thiago “Big” Rabello, Hamilton transformou a praça do shopping em um espaço de improviso, virtuosismo e emoção coletiva. O encontro entre bandolim, piano e bateria parecia reorganizar o ambiente ao redor.


Fotos por @glau.faria
Na sexta-feira (15/05), o pianista pernambucano Amaro Freitas na composição do seu trio, apresentou talvez um dos shows mais hipnóticos da mostra. Com sua abordagem percussiva e espiritual do piano, Amaro criou momentos de verdadeira contemplação. Era possível perceber o público completamente absorvido pela intensidade do trio, não apenas ouvindo, mas tentando compreender fisicamente cada camada sonora construída no palco. Havia algo de ritual naquela apresentação.


Fotos por @glau.faria
No sábado (16/05), a programação da mostra revelou diferentes camadas da música instrumental brasileira contemporânea. O Walmir Gil Quinteto abriu a noite reafirmando a força de músicos que ajudaram a construir importantes percursos da música brasileira nas últimas décadas. Trompetista de trajetória sólida, Walmir conduziu uma apresentação sofisticada, marcada por improvisos precisos e pela experiência de quem carrega na bagagem colaborações com grandes nomes da música nacional.


Fotos por @glau.faria
Na sequência, o Vereda Quarteto, com a participação especial do lendário baixista Sizão Machado, trouxe ao palco uma sonoridade refinada e profundamente brasileira. Referência histórica do contrabaixo nacional, Sizão adicionou peso, elegância e liberdade às composições, criando momentos de rara conexão musical. Sua presença evidenciava não apenas virtuosismo técnico, mas também, principalmente nos momentos de fala com o público, nos contava a cada momento a trajetória de um músico que atravessou diferentes gerações da música instrumental brasileira.


Fotos por @glau.faria
Já a apresentação da OBMJ — Orquestra Brasileira de Música Jamaicana transformou completamente a atmosfera do Colinas Shopping. Com nove músicos no palco e uma poderosa sessão de sopros, a orquestra trouxe uma verdadeira explosão sonora de ska, rocksteady, música brasileira e reggae instrumental. O impacto dos metais ecoava pelo shopping e contagiava o público, que acompanhava as releituras com entusiasmo, muitos já com vontade de abandonar as mesas da praça de alimentação para dançar diante do palco. O que de fato aconteceu na reta final do show.
Ao reinterpretar clássicos da música jamaicana com arranjos sofisticados e forte identidade brasileira, a OBMJ rompeu fronteiras entre o instrumental, o popular e o urbano. Mais do que um concerto, o grupo entregou uma experiência coletiva vibrante, comunicativa e festiva, provando que a música instrumental também pode ocupar o corpo, a celebração e a pista de dança.


Fotos por @glau.faria
No domingo (17/05), a MIB encerrou sua programação reafirmando a diversidade e a potência da música instrumental brasileira contemporânea. A tarde começou com o encontro entre Arismar do Espírito Santo e Gabriel Grossi, dois músicos fundamentais da cena instrumental nacional. Arismar, multi-instrumentista reverenciado pela liberdade criativa e domínio técnico, encontrou no virtuosismo sensível da gaita de Gabriel Grossi um diálogo musical sofisticado e profundamente orgânico. O resultado foi uma apresentação marcada pela improvisação, pela leveza e pela sensação de que os instrumentos conversavam entre si diante do público.


Fotos por @glau.faria
Na sequência, o palco recebeu Chico Oliveira e Trio Nota Jazz, que dividiram a apresentação com o saxofonista Derico Sciotti, ambos conhecidos nacionalmente por longa trajetória no sexteto do Programa do Jô. O show trouxe momentos de descontração, virtuosismo e forte comunicação com a plateia, inclusive quando desceram do palco e começaram a tocar entre as mesas da praça, transitando entre standards do jazz, improvisações e referências brasileiras com naturalidade e carisma.


Fotos por @glau.faria
Já o encerramento com Vanessa Moreno e Salomão Soares talvez tenha representado um dos momentos mais delicados, profundos e emocionantes de toda a mostra. Voz e piano pareciam suspender o ritmo habitual do shopping, conduzindo o público para um lugar íntimo, quase doméstico, mesmo diante da dimensão pública do espaço. Havia algo de raro na forma como Vanessa interpretava cada silêncio e na maneira como Salomão construía paisagens harmônicas ao piano.
A conexão entre os dois artistas transformou a praça do Colinas Shopping em um ambiente de escuta absoluta. O público permanecia imóvel, atento aos detalhes mais sutis das interpretações, como se ninguém quisesse romper a delicadeza daquele momento. Foi um encerramento de enorme sensibilidade, daqueles que não terminam quando a última música acaba, mas permanecem reverberando dentro de quem esteve ali.
Fotos do público no Encerramento da Mostra no domingo, 17 de maio de 2025, por @glau.faria
Um palco dentro do shopping e a ruptura simbólica disso.
Existe algo profundamente simbólico em realizar uma mostra gratuita de música instrumental brasileira dentro de um shopping. Porque, inevitavelmente, a MIB deslocou a lógica daquele espaço.
Por alguns dias, o centro comercial deixou de ser exclusivamente um ambiente de consumo material para também se tornar espaço de consumo cultural, e talvez essa seja uma das maiores potências do projeto.
Ao acolher a mostra, o Colinas Shopping rompeu parcialmente a hegemonia habitual desses ambientes e abriu espaço para outra forma de experiência pública: uma experiência baseada na permanência, no encontro e na fruição artística.
Em um país onde a música instrumental ainda é frequentemente tratada como linguagem restrita, elitizada ou inacessível, a mostra MIB 2026 realizou um movimento importante de democratização.
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